quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A puta que parecia Marisa Monte.

Entrei no ônibus, eu estava maquiada e me sentindo bonita. Me sentia diferente, era uma beleza emprestada. Com aquela forma emprestava eu buscava agir de acordo. Mulher gosta de agir de acordo com a roupa. Haviam muitos bancos, eu podia escolher um para sentar e normalmente sentaria sozinha em um banco de dois. Mas me deparei com uma mulher de óculos escuros, cabelo enrolado preso e batom vermelho muito forte. Meu coração sorriu ao assimilar a imagem com a da cantora Marisa Monte. Eu costumo gostar mais das pessoas quando a rosto é familiar. E eu gosto muito de Marisa Monte. Caminhei em direção a ela e sentei satisfeita com o dia que começava bem só pelo fato de estar me sentindo bonita, estar indo ver alguém especial e estar sentada ao lado de uma mulher que parecia a Marisa Monte. Não demorou muito até eu sentir o perfume dela. Era bem forte. O batom vermelho e o perfume fizeram sentido quando eu a vi levantando para descer nas ruas do centro, ela era prostituta. A semelhança com a cantora então se tornou engraçada. Pois na próxima parada ela desceu em busca da fama na noite.

Não contar.

Eu sou do tipo de pessoa que evita ao máximo se apaixonar, principalmente quando é algo que parece impossível, quando se trata do coração a coragem desaparece. E acredito que só o fato de tentar evitar já faz com que a atração pela outra pessoa só aumente. Como me incomoda, meu Deus. Nunca consegui contar uma paixão para alguém, é um peso suportável no extremo limite do suportável. Não contar é como ter ganho muito dinheiro e não poder gastar: a felicidade de ter toda a riqueza de nada tem valor. Não, exemplo idiota, porque na verdade não contar tem muito valor sim: é possível ficar feliz com cada ação conquistada sem cair em si. Acredito que contar uma paixão deveria ajudar a desapaixonar, por isso que sempre cogito em contar. E a auto-estima cai de novo lá em baixo quando penso nisso, porque não existe pessoa no mundo, não que eu conheça, e perdoem-me meus amigos, mas não há pra quem contar. Primeiro porque essa pessoa tem que conhecer a outra, e isso já dificulta porque não pode haver um nível de amizade entre as duas, ao mesmo tempo que tem que ter um nível alto de amizade comigo. Difícil. Não gosto de complicar, mas é por isso que prefiro não contar, até porque a partir do momento que você conta, aumentam os riscos. Risco de a pessoa saber, o definitivamente não é bom. O fato do outro saber só causa constrangimento. Ninguém passa a gostar por descobrir que alguém é apaixonado por ele. Miss corações solitários, acho que preciso de ajuda.

sábado, 22 de agosto de 2009

Beijo.

Estranho como a boca tem uma importância especial para os amantes. Você pode olhar diferente pra alguém, que tá perdoado. Pode até abraçar, dar a mão, nada é visto como estranho, mas um beijo é a obviedade do fato. Por vezes um beijo não significa nada, mas é um sinal tão forte que qualquer pessoa o interpreta com um peso enorme, também conforme o lugar e a situação. Mas o fato é que um beijo pode começar ou destruir um amor. Não é o beijo em si que destroi. Mas o que leva a pessoa a fazê-lo. Há quem distribua beijos por ai, nas noites, mas não na luz do dia, não em meio a correria do dia-a-dia. O beijo é um gesto de coragem e fraqueza. É um selo de uma união, não é a toa que existe o popular "selinho". Mas onde eu quero chegar, é na traição. Quem decretou que a partir de um certo momento se é dono da boca de alguém? E porque isso magoa a ponto de acabar com uma história? Uma vez eu li que o forte não é o que termina uma relação e segue em frente, mas o que consegue manter a mesma relação. Será? Tenho uma dúvida enorme. O fato é que ser dono da boca do outro é realidade dos relacionamentos comuns, desde que o cinema existe e arrisco dizer que muito antes. Romper com isso, definitivamente, não é coragem, é desrespeito e falta de carater. Ninguém é ingênuo o bastante para não saber que faz mal. Ninguém é superior as tradições de repente. A traição se foi, o momento de prazer passou, e só sobrou o castelo desmoronado. O castelo que não vale a pena reconstruir, porque apesar das bases fortes, era mantido por uma espécie de tripé que não exigia somente força, mas também equilíbrio. Os pedaços estão diante dela. Não dá pra jogar fora. Não dá pra reconstruir. É um fim. E já se passaram três dias férteis.

domingo, 16 de agosto de 2009

Um fim.

"A gente se surpreende em saber o quanto pode suportar", frase dita em "House MD" e sem assistir a série muitas vezes vi escrita. É uma frase que nunca tinha surtido efeito para mim. E é tão simples que nem atenção me chamava. Mas as palavras vão e voltam quando precisamos dela, e no momento certo ela virou como um mantra. Força. Para suportar é preciso força. E por mais que a dor seja grande, é tão bom ver que não existe uma dependência como antes se achava. A liberdade surge e é sempre quado não se quer aproveita-la.

domingo, 17 de maio de 2009

Transitividade

Em uma confusão de vozes e sons, a professora aparece. O barulho continua o mesmo. Ela, pacientemente, apaga o quadro e chama a atenção de todos para si, pois vai começar a aula. Apenas algumas vozes continuam, mais baixas. A aula é de português e aos poucos o quadro verde vai sendo preenchido por giz branco, azul e rosa. Forma-se ali um grande esquema de flechas, que até remetem a aula de matemática, sobre a transitividade do verbo, simples e fácil de decorar. "Quem precisa, precisa?" pergunta a professora para todos, que respondem em coro "De!", "Algo ou alguém", ela complementa. "E quem pode, pode?", continua. Não há nenhuma resposta, então ela conclui "Não precisa de complemento, porque ‘poder’ é um verbo intransitivo!". Eu estava sentada na terceira carteira, exatamente no meio da sala. E no instante em que ela proferiu a frase, pensei: "Mas o que é mesmo um verbo intransitivo?". Infelizmente, naquele momento, ela terminou o assunto e perguntou para todos se havia dúvida e o silencio permaneceu. Aquela mulher, por alguma expressão em meu rosto, ou só para quebrar o silêncio, perguntou logo para mim: "Alguma dúvida, Maria?", e aproveitando a oportunidade, fiz a pergunta que se passava em minha mente. Ela sorriu e apontou para onde uma das flechas apontava, estava escrito bem grande: VI, "Verbos intransitivos, são os que não precisam de complemento, diferente dos verbos transitivos que...". Quando parou para respirar disse logo que havia entendido, com medo de que a aula fosse inteiramente repetida, ou que o ciclo não terminasse nunca. Eu queria mesmo era saber porque ele não transita, dizer que intransitivo não precisa de complemento era quase pleonasmo. Mas entendi que quem pode, pode: e não precisa de complemento. E a dona das palavras era o maior poder que eu conhecia.

sábado, 21 de março de 2009

Passatempoesia.

Nesta folha de rabiscos e retalhos
Uso o que levo comigo
Lápis, somente
O que preciso
O que exige
O que vomito
Vomito palavras
de amor
de dor
de nada
Não sustenta
Nem ostenta o poeta
Apenas o satisfaz.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Os olhos do perigo

Um olhar, como tantos que ja havia recebido, provocou-lhe um constrangimento estranho, como se visse uma pessoa conhecida que odiasse, e virou o rosto rapido, em um reflexo. Se viu indagado por aquele gesto tão inesperado. Não era por ser o olhar de uma menina, ele sabia. Não era por aspectos físicos. Pensou que podia ser pela coragem com que olhou, diretamente nos olhos, ele, e ela, ao mesmo tempo. Ao se virar, sentiu-se patético em fingir procurar alguém que ali nunca estaria, e mechendo o pescoço tão bruscamente e incessantemente para que ela percebesse que procurava alguém. Ela continuava olhando, e ele não conseguia mais a olhar, por vergonha, pensou depois. Aquele olhar foi um baque, por um momento sentiu-se tão inseguro. Lembrou-se da infância em que tinha dificuldade para arranjar amigos devido a timidez exessiva. Mas, com o psicologo, a familia e o curso de teatro, já havia superado há anos. Viu-se um derrotado diante do acontecido, era tão sociavel, puxava conversa fácil, arriscava uma valsa nos bailes com a mulher, discursava em seus aniversários, ria alto durante o happy-hour e virara a cabeça ao encarar uma menina, com metade da sua idade. Já havia encarado um homem que olhou sua mulher com olhos sacanas, o seu antigo chefe que negou-lhe a folga de direito e até o porteiro do prédio que roubou-lhe o jornal. Não só encarou-os, como disse o que achou justo. Lembrou de todos enquanto os olhos da menina ainda ardiam em sua mente, e tentava entender, se foi algum tipo de sentimento que o fez agir assim. Via e revia a cena: ele, vindo pelo calçadão, ela, acabara de atravessar a rua, no sentido oposto. Lembrou-se que ao virar o rosto, frustrado por não encontrar nenhum rosto familiar, apressou o passo para parecer que tentava olhar os carros que passariam na rua antes de ele atravessa-la, mas enchergou o mínimo daquela subida. E sentiu-se mais idiota ainda. Se perguntava como agiriam as outras pessoas, queria saber se era o único fraco. Atravessou a mesma rua que ela atravessara há alguns segundos e nem viu o momento em que ela o passou. Era como tivesse visto nele mesmo algo que fugia a anos. Se dava conta que sempre foi assim com as pessoas, de certa forma um covarde. Não conseguia ver a beleza de um covarde, queria ser quem nunca foi, o tempo todo. E os olhos viram por trás da mascara que usava. Quando esteve na mira sentiu-se, na realidade, nú. Envergonhou-se de quem era, queria ser visto forte, com as roupas do trabalho, com o olhar da menina. Com a cabeça baixa atravessou a próxima rua surpreendido por um carro. E a menina jamais soube o que os seus olhos fizeram, sabidamente triunfosos.